skip to Main Content

Estamira, ou a crença no mundo

“O que é belo a ponto de chorar é o amor. E mais ainda talvez: a loucura, a única salvaguarda contra o falso e o verdadeiro, a mentira e a  verdade, a estupidez e a inteligência: fim do julgamento”.

Marguerite Duras

Vircondelet, A. Marguerite Duras ou le temps de détruire. Paris, Seghers, « Les Ecrivains d´aujourd´hui », 1972. Tradução de Maurício Oliveira Santos

O campo das artes e, particularmente, daquelas que mobilizam a narrativa  como a literatura e o cinema  sempre manifestou grande fascínio pela desrazão. No terreno das vanguardas, assim como na criação artística individual, a razão foi insistentemente posta em questão, seja em nome da busca de novas e outras ordens de significação, seja da ampliação das margens do sentido ou do rompimento de seus limites. Mas, além destes experimentos voltados para a interrogação sobre o próprio fazer artístico, a arte se ocupou também da desrazão dos homens, tendo-a como tema em inúmeras de suas obras.

Em virtude da sua “acomodação” à medida humana, o cinema sempre revelou grande curiosidade por esse mundo que escapa ao entendimento habitual, em que os sentidos falham ou propiciam configurações irreconhecíveis. E se, por um lado, a criação cinematográfica pode às vezes ser acusada de ter-se deixado seduzir pela desrazão – afinal muitos dos loucos chegam a constituir verdadeiros “personagens acabados”  por outro ela teve também o intento, mais nobre, de sondar as suas mais variadas manifestações na busca de um melhor entendimento do humano.

Devido ao seu grande potencial investigativo, o documentário foi provavelmente o gênero que mais se consagrou à exploração de tal “desordem” ou  “ruína” do sentido, apresentando múltiplas abordagens da loucura. Lembremos, por exemplo, do enfoque “frio” do francês Raymond Depardon ao testemunhar a vida dos doentes mentais da clínica San Clemente, em Veneza (San Clemente, 1980), atestando, de certa forma, o caráter “impenetrável” de seus mundos interiores; ou do “road movie” documental de Robert Frank, Me and my brother, que acompanhou a viagem do poeta Allen Ginsberg de Nova Iorque à costa leste dos EUA para declamar seus poemas, acompanhado de seu jovem e indiferente irmão esquizofrênico; ou, entre nós, da série Imagens do Inconsciente (1987), de Leon Hirzman, que buscou revelar a riqueza e a força de expressão artística dos pacientes que a Dra. Nise da Silveira tratava por meio da pintura.

Note-se ainda que, ao penetrar nesses universos “outros”, o cinema documental não se limitou ao registro da expressão desta parte “inacessível” da nossa humanidade, dedicando-se também à crítica do estatuto social atribuído à doença mental, ou ao tipo de acolhida que a sociedade dispensa aos que dela padecem.

O recente documentário Estamira , realizado por Marcos Prado com uma doente mental que vive num lixão  da região do Rio de Janeiro, pertence à primeira vertente, que promove a escuta dessas falas inacessíveis. Seu grande mérito é, sem dúvida, ter conseguido aceder ao discurso complexo de Estamira, oferecendo-lhe uma escuta atenta, respeitosa e sensível – que lhe permite não apenas mostrar a dignidade e a honradez desta mulher que mais parece fugida de uma tragédia grega, seu integral comprometimento com a sua narrativa, mas captar todo o alcance e grandeza de seu delírio. Um delírio que encontra seu paralelo no de Artur Bispo do Rosário e na “obra” que lhe tomou toda a vida: esquizofrênico, interno na Colônia Juliano Moreira, no Rio, por 40 anos, Bispo se dedicou inteiramente à confecção de bordados, de mapas, à acumulação e recenseamento de objetos do dia-a-dia que constituíram um “mundo”, ou uma “cópia” do mundo, a seus olhos tão “sagrada” quanto a Criação de Deus.

Amplamente conhecidos, os numerosos e minuciosos bordados de Bispo, assim como sua coleta, reprodução e classificação de objetos familiares variados não visavam, na verdade,  construir “um” mundo, mas, antes, reproduzir o mundo, reunindo e nomeando todas as coisas nele existentes para apresentá-las a Deus no dia no dia do Juízo Final. Bispo se tornou conhecido por seus pujantes bordados que cobriram mantos, estandartes e outras superfícies de nomes próprios, de textos, e pela criação (ou “recuperação”) de objetos, sua classificação e acumulação. Esse interminável recenseamento de todos os objetos e seres do mundo deveria constituir uma oferenda sagrada, que Bispo faria a Deus no dia do Juízo Final, pela salvação dos homens e de si mesmo.

Estamira não fabrica objetos, mas palavras; não deixará uma obra palpável, mas, graças ao documentário arrebatador que Marcos Prado lhe consagrou, terá nos legado uma narrativa à altura daquela da obra de Artur Bispo do Rosário.

Mesmo se o objetivo do filme é dar conta de seu delírio, o diretor teve o cuidado de não negligenciar o contexto social, familiar e afetivo de Estamira, apresentando sua história pregressa, rememorando seus casamentos e as violências de que foi vítima. Do mesmo modo, concedeu também atenção aos depoimentos de seus filhos, atestando o comovente afeto e a acolhida que concedem a esta mãe de tão difícil convivência – que, entretanto, se recusam a “internar” 1. Mas o principal intuito do diretor, posto em prática ao longo de um convívio de quatro anos com Estamira, é captar sua fala, reconstituindo cuidadosamente uma narrativa na qual, também como na obra de Bispo, Deus se faz presente, sendo igualmente (mas em negativo) seu personagem central.

1 Apenas o mais velho dos filhos, evangélico, não aceita seu mundo e a acredita que ela é possuída pelo demônio; só este filho aceitou interná-la.

É que, ao contrário de Bispo, que visava homenagear a Deus com uma oferenda, Estamira veio ao mundo para denegá-lo, para guerreá-lo, para enfrentá-lo como inimigo e para afirmar, face ao “poder ao contrário” desse falso Deus “criado pelo homem”, “o poder do que é”. A esse Deus dessacralizado, que “engana”, “mente”, “trai” e só faz o mal, Estamira opõe sua crença no mundo real, assumindo a missão de ensinar os inocentes e de fazê-los “ver” a verdade. Esta-mira.

Esta relação ou contraponto entre os dois delírios torna-se mais evidente, e também mais enriquecedora, se atentarmos para a bela leitura que fez da obra de Bispo o filósofo francês David Lapoujade 2. Fascinado pelas criações expostas na exposição “Imagens do Inconsciente”, por ocasião da exposição “Mostra do Descobrimento”, em 2000, Lapoujade concedeu-lhe o mesmo olhar generoso que Prado voltou para Estamira, chamando atenção para a “urgência” da tarefa que Bispo se impôs “de empacotar o mundo, de bordar todos os nomes de todos os conhecidos, de estabelecer todos os mapas da frota brasileira, dos regimentos, das ruas e dos bairros do Rio de Janeiro, de pôr o Carnaval em garrafa, de classificar os objetos familiares em grupos arrazoados, de colocar tudo em estandarte” – atendendo ao imperativo sagrado de sua missão: a salvação dos homens e de si mesmo.

2 “Bispo ou o estandarte do mundo” in Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 2-07-2000

“O mundo deve ser salvo por esse interminável trabalho do bordado, por essa pele ora tatuada como a de um marinheiro, ora furada por múltiplos poros (cf. os “brise-soleil”), ora sobrecarregada de todos os objetos familiares”, escreve o filósofo. Na longuíssima lista de todos os objetos do mundo, de todos os meios de transporte, de todas as pessoas conhecidas, Lapoujade chama atenção para o bordado de bandeiras de todos os países conhecidos, que também deverão ser salvos por meio delas já que, desvestidas de seu papel de “símbolo nacional” tornam-se, pelas mãos de Bispo, “o excesso de uma vasta geografia, de uma taxionomia, de um registro, de um Atlas de todos os objetos, pessoas, meios de transporte, ruas, nomes e misses de cada país”.

Cada bandeira é o inventário bordado de todos os países e sua função de representação está, segundo Lapoujade, no centro do mundo criado por Bispo. Concebido como uma “embaixada” o inventário é “um sistema de representação por meio do qual Bispo busca esconjurar a esquizofrênica fuga dos nomes e das coisas”: “cada coisa deverá portar a vestimenta do que é”, “portar o seu nome”, e os esplêndidos objetos bordados por Bispo assumem, dentro desse sistema de representação, o papel de “embaixadores das coisas sem nome e dos nomes sem coisas”; “assim como as misses serão as embaixatrizes das beldades de seus países e as embaixadas são os representantes de seus países”, explica o filósofo, “à bandeira de todas as bandeiras corresponde o embaixador de todos os embaixadores – o próprio Bispo – como o embaixador de toda a esquizofrenia do mundo, junto a um Deus que reconheceria na obra de sua criatura sua própria esquizofrenia, a loucura de sua própria criação”.

Estamira  não tem esta mesma relação com Deus (“sagrado é o meu barraco”, dirá), nele não crê e, guerreira,  enfrenta uma luta continuada e também interminável com esse Deus-inimigo, “canalha”, “traidor”, “estuprador” – o “trocadilho”, que inverte todos os significados para enganar os homens. Esse desafio ao “poderoso ao contrário”- assim narra uma vizinha o início de seu delírio – teria começado quando, ao contemplar um coqueiro nas vizinhanças de sua casa, afirmou: “isto é que é o poder”. Poder das coisas, poder do mundo: a esse Deus “de mentira” Estamira opõe a realidade do mundo, “que é o que é”, sua crença “no que existe”, “na paisagem”, “no que vê”, na visão de cada um (“eu sou a visão de cada um”); no homem como “único condicional” e na igualdade de todos – inclusive os bichos – num mundo onde não há “escravos disfarçados de libertos”, onde “bonito é o que fez e o que faz”, propondo um “comunismo superior” no qual cabe até o luxo desta escolha: “Não gosto de quem ofende cores e formosura”.

Enquanto Bispo constrói um inventário de todas as coisas para consagrar o mundo a Deus,  Estamira, mulher, “condicional par”, “doida”, “zuretada”, “feiticeira”, “má na cobrança mas não perversa”  renega Deus e escolhe o mundo, afirmando que os seus restos, os seus destroços  – o lixão de Gramacho –  são “o melhor lugar” para se viver.

Esse lugar para o qual vão as coisas desprezadas, descartadas, inúteis, lugar onde, já destituídas de valor, são finalmente devolvidas à sua condição de matéria talvez represente, para Estamira, o último reduto ou a manifestação mais recôndita do que seja “o poder do real” face ao poder “ao contrário” do divino: lugar do que sobrou, do que, literalmente, “transborda”, Estamira pode aí se ver como a guardiã dos seus limites. “Sou a beirada do mundo”, dirá, “estou lá e cá” – como se lhe coubesse assegurar os “contornos” (contornos, a última palavra que lhe resta de seu delírio, e que a atormenta quando já está dopada) desse lugar extremo do “resto e do descuido” – isto é, do que não merece mais atenção.

Só ali, depois de encerrada a vã trajetória dos objetos, Estamira pode selar seu compromisso com o mundo, com a realidade do mundo, pôr-se “na carne” para revelar sua verdade profana: “tudo é”.   

Publicado no Caderno 2, Jornal O Estado de São Paulo.
Back To Top