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Armand Robin – ofício de ouvinte, ofício de poeta

Esse trabalho consistiu no exame da experiência ímpar do poeta bretão Armand Robin que se dedicou, durante o período da Guerra Fria, à escuta das rádios interiores dos países da URSS nas suas línguas originais; a partir do exame minucioso dos noticiários, Robin elaborava boletins bi-hebdomadários destinados a assinantes com um resumo do noticiário e um comentário pessoal a respeito da situação política nesses países. A elaboração dos boletins que contavam, dentre seus assinantes, com o Vaticano, o Serviço de Imprensa do Palácio do Eliseu, embaixadas, jornais, agências de notícias e altas personalidades do governo francês, tinha dois objetivos: obter informações inéditas, precisões ou simples interpretações que pudessem ajudar a compreender as informações oficiais filtradas pelos governos; tentar prever os acontecimentos.

Além do exame dessa experiência, a pesquisa compreendeu também a tradução dos dois textos produzidos por Robin a respeito desse seu trabalho: La fausse parole (1953) e L´Outre-écoute (1945-50 e 1955), com, respectivamente, 24 páginas e 62 páginas.

Comecemos por uma curta biografia do poeta, inspirada no texto de sua principal biógrafa e uma das maiores especialista em sua obra, Françoise Morvan [1]. A leitura que Morvan faz da vida e do trabalho de Armand Robin é marcada pela interpretação psicanalítica, muito em voga no contexto francês do período. Na impossibilidade de um levantamento nas fontes, guardemos os principais eventos retidos por Morvan nessa vida de percurso extraordinário e atribulado.

[1] Morvan, F. “Introduction” in La fausse parole, Editions Plein Chant, Chateauneuf surCharente, 1979.

Armind Robin aos 17 anos (fotomontagem)

Armand Robin nasceu na Bretanha em 1912, no momento em que tem início, naquela região, o grande desmantelamento da sociedade rural tradicional. Seu nome não era Robin, como sempre gostou de assinar, mas Vincent, que nunca usou. Esta subtração do nome próprio, esta discrição a respeito de seu nome oficial encontra correspondência, segundo notam seus biógrafos, em outra atitude do poeta. Robin sempre manteve sua vida pessoal numa reserva absoluta: “desembaraçar-se de si mesmo” – expressão que muitas vezes usou a respeito de sua existência oficial – eram uma necessidade e uma imposição para atingir o estado de disponibilidade total, exigência primeira, na visão do poeta, para a operação de abertura ao outro, à língua e à poesia.

 A família de Robin era camponesa e habitava em Cornouailles, numa propriedade praticamente intocada desde a Idade Média. Seus biógrafos informam que ele foi criado num ambiente de trabalho duro, em que as palavras tinham seu peso e não deviam ser desperdiçadas. Esse respeito pela palavra, a responsabilidade pela sua proteção acompanharam o poeta ao longo de toda a sua vida.

 Robin aprendeu a falar em fissel, dialeto de sua região natal na Bretanha. Começou seus estudos em Rostrenen, num colégio dirigido por padres: ali se destacou por seu espírito cáustico e por suas qualidades intelectuais. Em 1029 entra no Liceu Lakanal, em Sceaux, onde é aluno de um de seus compatriotas, Jean Guéhenno, com quem terá mais tarde uma correspondência incendiária. Ali conhece também Henri Thomas e Alain Bourdon, que será mais tarde os editores de sua obra póstuma.

 Seu primeiro romance, Le temps qu´il fait sai em 1936, na revista Europe, dirigida por Guéhenno. Será o único, e a designação deve ser tomada, advertem os estudiosos da sua obra, no sentido bretão do romance, na mesma linhagem dos Cavaleiros da Távola Redonda. A versão completa só será publicada em 1942 pela prestigiosa editora Gallimard e será saudada por um longo artigo de Maurice Blanchot. Na mesma época publica ainda pela Gallimard uma compilação de poemas intitulada Ma vie sans moi. Colabora também, como amigo dos destacados intelectuais Jean Paulhan e Jacques Supervielle, nas revistas Esprit e NRF. Trata-se do início do que poderia ser considerado uma promissora carreira de homens das letras que fez sua opção pela língua francesa. Na verdade, o francês foi a segunda língua de Robin, e teria permanecido como uma língua de empréstimo, artificial, se ele não tivesse sido estimulado a prosseguir seus estudos. Essa escolha do francês, língua que lhe permite a entrada num mundo de conhecimentos mais rico foi, no entanto, vivida pelo poeta como uma traição. Pelo menos é assim que a analisa Françoise Morvan; a crítica observa, com efeito, que a renúncia à língua materna, ao trabalho na terra, e a escolha do exílio não levaram Robin a se dizer francês, a aceitar a vida burguesa ou o saber convencional da universidade[2]. Nem burguês nem proletário, nem francês nem bretão, Robin viveu sempre como um desenraizado – condição que teve um papel fundamental na definição do que viria a ser o seu trabalho.

[2] Morvan, F. Idem.

Para Morvan, a viagem que Robin fez à URSS em 1934 – dois anos, portanto, antes da famosa viagem de André Gide – foi ocasião de uma nova ruptura, da mesma ordem daquela que levou o poeta a abandonar a sua língua materna. Para entender o sentido desse corte profundo, no entanto, é preciso entender o papel da política e da língua russa na vida de Robin.

Na época dessa viagem Robin era comunista, e estudava o russo há dois anos. Mais que uma opção política, a Rússia foi para ele uma “pátria mental” e uma língua à qual pôde se ligar como nunca o fizera com o francês. “Após uma longa busca – escreve ele no seu prefácio a Quatre poètes russes, tradução de sua autoria – eu descobria palavras frescas, violentas e comoventes, trêmulas de uma barbárie ainda mal domada”.

 Com relação à política, eis as suas palavras: “Quem poderá dizer o que a URSS foi para nós? Mais que uma pátria de eleição: um exemplo, um guia. O que nós sonhávamos, o que mal ousávamos esperar, mas aquilo para o que tendiam nossas vontades, nossas forças tinha lugar ali. Era, assim, uma terra onde a utopia estava a ponto de se tornar realidade”.[3]

[3] Ambas as citações vêm do texto de Françoise Morvan.

A viagem de Robin à URSS, países bálticos, Polônia e Alemanha representou a decepção e o fim desse sonho tão acalentado, assim como talvez tenha contribuído para inaugurar, mais que seu gosto, sua fome pelo aprendizado de novas línguas. Não por acaso, nota Morvan,  essa ruptura se dá alguns meses após a morte de sua mãe. Na URSS o que chocou Robin, mais que a opressão do povo, foi a descoberta do uso que poderia ser feito da palavra.

De volta da URSS, Robin  não está apenas desencantado, tournou-se anti-comunista. E para dar palavra aos oprimidos pelo regime põe-se a traduzir os poetas russos: Essenin, Blok, Parternak, Maiakovski. Na verdade ele já tinha traduzido três peças para a edição da Plêiade, assim como o Rubayat, de Omar Khaian. Mas, agora, tomado de um verdadeiro fervor pelas línguas, vai aprender mais umas vinte outras, com predileção particular por aquelas ameaçadas na sua própria existência. Em dois volumes, ainda da Gallimard, reúne poemas chineses (Tu Fu e Li Po), textos árabes (Imroulgais), flamengos, húngaros, eslovenos, gregos e úgricos.

Esta prática, que Robin qualifica de não-tradução (na sua primeira coletânea, Robin já publicara textos pessoais e traduções em pé de igualdade) é uma atividade bem mais que literária. A esse respeito, o poeta escreverá:

“Na língua francesa de meu tempo, o que se chamava poesia parecia quase sempre tradução. Eu ficava muito infeliz. Para fugir desse inferno, caminhando de era em era, combatendo-me a mim mesmo a cada passo, fiz de mim todos os grandes poetas de todos os países, de todas as línguas. Atingi um Éden de antes da Torre de Babel: todos aí falavam uma ultra-língua. Alegre arado, minha alma passou de sulco em sulco, ao longo da palavra íntegra. Descobri-me geral e universal. Invejei o verbo. Fiquei feliz.”

A palavra poética torna-se, para Robin, o maior antídoto contra a propaganda política que tanto agredia e feria a linguagem. E é para atender a esse objetivo – ser um antídoto contra a propaganda política – que ele inventa um ofício original: aproveitando-se de seu extraordinário dom para as línguas, passa suas noites a ouvir em ondas curtas os programas  de propaganda política de todos os países. A partir das informações recolhidas, redige um boletim de escuta que ele próprio mimeografa e entrega pessoalmente a algumas poucas dezenas de assinantes (mais ou menos quarenta) – dentre eles o próprio Ministério da Informação da França. Capaz de operar inusitados cruzamentos entre as informações coletadas, Robin executa, sozinho, o trabalho de uma equipe inteira de especialistas.

Robin é não apenas extremamente bem informado a respeito de tudo o que se passa no mundo; seu fino ouvido de poeta lhe permite perceber o que as palavras sequer chegam a dizer, mas que se encontra de certo modo velado sob seus sons e sentidos; assim,  anuncia bem antes do resto do mundo, a provável ascensão de um responsável local do Partido Comunista Soviético chamado Krushev, por exemplo. La fausse parole, que publica em 1953, é uma das mais espantosas análises a respeito do que hoje se entende como mecanismo de desinformação [4]. Esta atividade de “ouvinte profissional” torna-se rapidamente e ao mesmo tempo seu meio de subsistência e o fundamento de seu próprio trabalho de escritor.

[4] O livro, fruto da escolha política de Robin no momento de sua escrita, só focaliza a escuta das rádios da extinta URSS. Mas Robin escutava todas as rádios do mundo, inclusive da BBC e da Voz da América.

Além da escuta e das traduções, Robin não parou de produzir poesia, mas o ritmo se reduz e esta assume feição particular após o contato com a propaganda. Adquirindo os contornos da poesia política ou de protesto, sua obra assume um tom polemista, agressivo, que lhe vale muitos inimigos. Durante a ocupação alemã Robin escreve à Gestapo, para confirmar denúncias que teriam sido endereçadas pelos colaboracionistas a seu respeito. Nesta carta, o poeta não apenas chama os policiais alemães de assassinos, como denuncia os campos de concentração e as câmaras de gás. Mais tarde, com a liberação, Robin pede que seu nome seja inscrito na lista negra do Comitê Nacional de Escritores que estaria preparando uma depuração nas letras francesas.

É nesse período que Robin se aproxima dos anarquistas. Colabora no Monde Libertaire, na Nouvelle NRF e se torna personagem do livro La tour des miracles, de seu amigo Georges Brassens.

Em março de 1961, doente e cheio de dívidas, desaparece de seu domicílio e morre no dia 30, na Enfermaria Especial da Polícia em circunstâncias que nunca foram esclarecidas. Sua casa é fechada pela polícia, a família não reclama seus bens. Alguns dias mais tarde, avisados pelo porteiro do prédio onde morava o poeta, dois amigos recuperam seus papéis que, triados por Alain Bourdon e Henri Thomas, se transformarão no livro Ma vie sans moi.

 A lembrança de Robin nos dias que correm é duplamente atual, tendo em vista não apenas a situação vivida pelos países do leste europeu, mas, por outro lado, também o desenvolvimento e a exploração, no ocidente, de poderosos sistemas de comunicação.

Com efeito, as grandes transformações atualmente experimentadas no leste europeu trazem paradoxalmente à tona a distante e praticamente esquecida aventura de Robin.

Pois o desmantelamento do regime comunista acompanhou-se de um fenômeno de linguagem paradoxal: de par com a derrocada ideológica, assistiu-se ao surgimento de uma comunidade de nações que reencontram seus nomes, mas onde se reavivam todos os problemas de religião, de língua e de nacionalismos. Em recente entrevista ao jornal Folha de São Paulo,, o filósofo da linguagem Jacques Derrida chamava atenção para a importância da tradução e da língua, da experiência do nome e do idioma nesse contexto de ricas e conturbadas experiências políticas. E apontava dois desdobramentos possíveis de tal situação: um fechamento dessas populações sobre o particularismo e o nacionalismo agressivo –  tal como assistimos na Iugoslávia no momento – ou a inauguração de uma nova forma de afirmação da língua, do nome e do apelo à tradução, que apontaria para uma política de abertura e escuta do outro.

Com suas traduções, mas também com sua escuta e o tratamento das linguagens totalitárias, Robin foi um precursor desse segundo caminho apontado pelo filósofo. Situando-se exclusivamente no campo das línguas e vendo nelas o lugar de intensíssimas batalhas,  Robin fez de suas experiências um lugar de circulação e de troca de linguagens, onde tradução e escuta representaram modos de se aproximar e de acolher o outro e, portanto, de exercer uma fraternidade lingüística para além das fronteiras políticas.

 A rememoração da experiência do poeta faz-se também necessária no mundo ocidental, onde o desenvolvimento dos meios de comunicação tem colocado nas mãos dos poderosos um poder multiplicado. Quando operações gigantescas de circulação de linguagem – como pudemos observar durante a Guerra do Golfo – são acionadas em nível mundial para adestrar a opinião pública na aceitação e apoio à guerra; quando os próprios jornalistas se tornam obsoletos face à altíssima qualidade do arsenal de produção da informação desenvolvido pelos mesmos senhores da guerra: quando tecnologia bélica e tecnologia da comunicação convergem entre si no apelo à censura, a voz e o protesto de Robin se reavivam e fazem lembrar que a palavra – bem humano por excelência – pode também se tornar uma arma, uma arma tão letal quanto os mísseis de longo alcance.

 Teria sido Robin ingênuo ao pensar que só os espíritos absolutamente autênticos, consubstanciais ao que dizem e fazem, poderiam resistir ao ataque da palavra insidiosa? E ao sustentar que a prática poética, por se apoiar na palavra verdadeira, seria um dos modos de consolidar a resistência face ao poder maléfico da linguagem totalitária? Em sua própria defesa, o poeta costumava afirmar que só se pode defender o espírito através de um outro ato do espírito.

Nesse sentido, o mérito de Robin estaria no modo como sua experiência da escuta e tradução circunscreveu um campo de luta, que integra a todos que vivemos na linguagem. Só é possível designar a falsa fala ao se desenvolver uma relação de autenticidade com a linguagem; a defesa contra a linguagem totalitária passa pela integridade da palavra e implica na abertura total para o outro – e supõe, portanto, o exercício de uma fraternidade universal.

Caricatura, 1943.

Os boletins

Os boletins de escuta foram a obra maior de Robin, que a eles consagrou a maior parte de sua vida. Dominando mais de vinte línguas, o poeta dedicava seus dias e noites à operação de escuta e gravação dos noticiários. Depois retomava certas gravações, anotava toda a informação útil, redigia, datilografava e mimeografava seus textos. Pessoalmente colocava os boletins nos envelopes e saía para distribuí-los.

 A distribuição sempre foi um problema para Robin, destaca Françoise Morvan. Seu objetivo era entregar pessoalmente os boletins aos assinantes; mas a perda de tempo com tantas idas e vindas levou Robin a decidir, juntamente com seus leitores, a enviar pelo correio os exemplares dos assinantes que habitavam a uma distância maior, entregando de porta em porta apenas os que se encontravam nas vizinhanças.

 Não há indicações precisas a respeito do tempo consagrado pelo poeta à escuta das rádios. Robin costumava atribuir 14 horas de seu dia ao trabalho; das dez horas restantes, três eram consagradas ao sono e quatro dedicadas à sua obra pessoal. Há constantes menções, em La fausse parole, ao cansaço, às horas sem dormir e mesmo à recusa de “tirar férias”.

 Os boletins tinham uma mesma conformação. Cada um comportava, em média, quatro páginas datilografadas em linhas comprimidas (às vezes seis; no final da vida de Robin, apenas duas). Robin publicava dois boletins por semana. Trabalhava longamente o material bruto gravado no momento da escuta diurna e noturna, retomando certas gravações até chegar à informação “utilizável”, isto é, àquela que ainda não estava disponível. Desta forma, ele não se demorava em informações já conhecidas dos jornais e nem escutava os serviços radiofônicos do estrangeiro em francês.

Além da poesia, da crítica e da tradução, os boletins – nos quais Robin registrou informações inéditas e previsões a respeito da situação na URSS – foram, de certo modo, a obra maior da vida do poeta. Armas de combate, como ele mesmo os designava, eles deviam responder ao sentido mais nobre da função de informar, contribuindo na luta contra a falsa fala da propaganda, que envenenava os espíritos com palavras enganosas.

 Integralmente assumido pelo poeta, o trabalho de produção dos boletins tinha dois objetivos: obter informações inéditas ou simples interpretações que pudessem ajudar a compreender as informações filtradas pelos governos, e tentar prever os acontecimentos. La fausse parole representa um misto de reflexão e de balanço a respeito desse trabalho de escuta mas é também, ao mesmo tempo, um desabafo do poeta em razão da sua intimidade com o que ele denominava a linguagem de dominação.

Como sugerem seus estudiosos, além da evidente dimensão política, Robin via na sua atividade de escuta e de produção dos boletins uma tentativa, no campo do jornalismo, de inventar novas formas de trabalho. De fato, ao reconhecer a presença da verdadeira notícia por trás das palavras emitidas pelas rádios, os boletins já sugeriam que a função de informar não estava sendo atendida dentro do sistema soviético. Mas, além dessa constatação crítica, as análises e previsões do poeta a respeito dos acontecimentos no mundo comunista comportavam também uma atitude eminentemente crítica face ao modo como o jornalismo vinha sendo desenvolvido do lado de fora da cortina de ferro.

O temor de Robin não se limitava à preocupação com o “desencadeamento cientificamente calculado de forças mentais obsessivas” pelo regime soviético. Atento do mesmo modo às forças igualmente presentes no mundo capitalista, Robin não via no  acionamento desses poderes apenas um mal provisório e sim “um instrumento de dominação eficaz demais para que seu uso não se generalizasse”.

 Consciente da existência e da circulação desses fluxos tanto num mundo quando no outro, Robin buscou conferir ao seu trabalho o sentido de uma “crítica positiva” do jornalismo em geral. O seu inventário do ofício de ouvinte foi, nesse sentido, um movimento em direção a uma forma de jornalismo diferente.

Também o mundo não-comunista não parecia a Robin protegido e infenso aos abusos da palavra. Preocupava também ao poeta a incorporação ou o desenvolvimento, fora das fronteiras comunistas, dos mesmos instrumentos de dominação pela linguagem – cuja eficácia o mundo comunista já levara ao seu extremo.

Sabemos que a constituição dos gigantescos sistemas midiáticos no ocidente é tributária, no plano da linguagem, de muitas das conquistas e desenvolvimentos no campo da propaganda política; as linguagens da propaganda, da publicidade, ou mesmo da imprensa beneficiaram largamente da exploração das potencialidades da palavra pela propaganda política em geral. Mas, além dessa absorção das técnicas de propaganda pelos meios de comunicação como um todo, a relação inversa – absorção pela propaganda, das técnicas desenvolvidas pela publicidade comercial se acentuou de modo extraordinário no mundo contemporâneo. A tal ponto que o especialista francês Jacques Ellul reconhecia recentemente a dificuldade do público em distinguir o que é ação dos governos da mera propaganda política.

Ao mencionar sua inquietação diante dessas práticas que se desenvolvem tanto de um lado quando de outro do mundo, Robin mostrava um entendimento inusitado de tal situação, que delimitava um campo de luta peculiar: para o poeta, a frente de luta contra a propaganda não se situaria mais no interior de um ou de outro regime – por mais opostos que fossem seus desígnios – mas estaria posta diretamente no plano da linguagem. Como criação e bem espiritual da humanidade, o domínio da linguagem precisaria, desse ponto de vista, ser constantemente espiado, permanentemente expurgado para que nenhuma mácula viesse a obscurecer a alma do homem.

O livro

A decifração dessa linguagem carregada de intenções, a compreensão dos processos de dominação através da palavra e da propaganda política como uma violência imposta ao Verbo são etapas de um processo ao cabo do qual o poeta passa a viver, na sua própria pele.

Capítulo da pesquisa inédita de Pós-doutoramento “Armand Robin e o ofício de ouvinte” realizada na Faculdade de Comunicação e Filosofia da PUC-SP. 1991-1992.
Imagem na home: Armand Robin por Guy Denning (sur le mur de la station d’épuration de l’anse Saupin).

Material

Portrait d’Armand Robin, décodeur de la propagande

Du 23 au 27 septembre 2013, “Histoire Vivante” consacre une semaine à une immersion dans la Guerre froide avec le portrait d’Armand Robin, un incroyable décodeur de la propagande. En quelques mots, Armand Robin, un breton doué pour les langues va se retrouver par les hasards de la vie à l’écoute des radios du monde entier fournissant pour le gouvernement français mais également pour d’autres institutions tels que le Vatican, des rapports d’écoute. Mais cet homme plein de talents et ami de Brassens, ne saurait être réduit à cette seule activité, il faudra aussi accoler au personnage d’autres contradictions: généreux, égoïste, paranoïaque et profondément humain. Dimanche29 septembre 2013 sur RTS Deux, vous pouvez découvrir le documentaire “L’ombre de Staline” de Marie Brunet-Debaines et Thomas Johnson (France / 2013).

radio  Histoire vivante 1/52/53/54/55/5

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